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Sunday, July 15, 2007

Letras no pó



Todos os anos existe um dia no qual a minha reduzida família se reúne com o propósito de enviar livros para África. E isto não é brincadeira. E nem sequer é dia com marca no calendário. Não é premeditado, simplesmente acontece. É feita uma vistoria por todos os livros empoeirados que repousam, à anos, em prateleiras já petiscadas pelo caruncho (tenho a dizer que adoro a palavra petiscar, mas ao que parece engorda). E (re)encontrei alguns livros dos quais não sabia pouso e que acabaram por marcar a minha infância.
Um deles é da autoria do mítico Júlio Isidro e chama-se Histórias do Tio Julião, um conjunto de histórias para crianças escritas pelo deslumbrante apresentador. O meu pai ofereceu-mo uma vez pelo Natal, deveria eu ter uns 8 anos, e lembro-me de ficar fascinada com os ilustrações dos contos e com a capa em tons de verde e estrelas e balões animados por expressões humanas. Voltar a tocar nesse livro foi absolutamente delicioso, e despertou-me memórias muito bonitas. E felizes, algo raro, já que em mim o saudosismo acaba sempre (ou quase sempre) em choro. Patético. Mas inevitável.
Adquirido na altura em que os meus pais pertenciam ao Círculo de Leitores, Maravilhas do Mundo foi, talvez, o livro que mais tempo me ocupou os dias quentes das férias de Verão, nas quais era obrigada a passar os habituais 15 dias na Praia de Buarcos, na Figueira da Foz. De tanto lhe dar uso destruí-lhe a lombada, e as páginas já mal se seguram. Começava com as 7 maravilhas da Antiguidade e prosseguia com uma descrição dos lugares e monumentos a visitar, organizados por continentes. Era o melhor meio de transporte, que me levava a viajar mundo afora, a locais diferentes, todos os dias. Tinha particular fascínio pelo Alhambra em Granada e os templos de Angkor no Cambodja, e o único monumento português que constava da lista era o Mosteiro da Batalha.
Confrontei-me depois com a colecção de 15 livros da Rua Sésamo, coloridos e enebriantes, uma colecção feita pelo meu pai ao longo de mais de um ano, comprando um novo volume todos os meses e sempre no mesmo quiosque. E em cada um desses 15 dias foi sempre dia de festa. E cada uma dessas festas prolongava-se por 30 dias, nos quais o livro era por mim escrutinado ao pormenor, ao ponto de lhe conhecer todas as formas e cores e saber de cor todas as linhas.
Algum tempo depois alguém muito especial me ofereceu o primeiro livro com mais de 50 páginas que eu tinha lido até então. Chama-se Senhor Deus, esta é a Ana (eu, que quase podia escrever hoje um livro com o mesmo título, se tivesse sido abençoada com o dom da palavra escrita) da autoria de Fynn. Ou como ver Deus através de uma lanterna mágica e da candura das brincadeiras de criança. Ficou guardado junto à cama para voltar a ler um dia destes. Depois vou oferecê-lo a alguém que o vai apreciar tanto ou mais do que eu.
Estes livros acabaram por não ir parar a África. Há partes da minha história que eu gosto de conservar junto a mim.

Friday, June 29, 2007

Leituras de prateleira

Quase em jeito de perdão a mim própria, ultimamente as minhas leituras restringem-se aos monótonos volumes de mil e muitas páginas que muito poucas histórias narram. Ainda assim, o esforço pode-se espelhar numa pausa para café ou numa viagem de autocarro, em que lá se aproveita para ler mais uns parágrafos do livro que nos acompanha actualmente, enfiado na mala juntamente com os apontamentos do dia.
Pegando então no repto lançado pelo 53, os últimos livros lidos são:

O duplo , de Fiódor Dostoiévski
O aprendiz secreto, de António Ramos Rosa
Mau Agoiro , de Günter Grass
O processo , de Franz Kafka
A dama das camélias , de Alexandre Dumas, filho

Passo ao meu progenitor das Tristes Almas Contentes, à Ana Marta de O Sabor da cereja, à Curse do 10 feet under, ao Zé do Tipo sem tipo e à Betty do Peixe de Aquário.