
Tinha os meus ternos 10 anos, regressava à tarde da escola, pousava a mochila (que na altura era maior do que eu) junto à porta do quarto e trocava as sapatilhas da moda por umas sapatilhas velhas e já rotas que eram sempre motivo de discussão com a minha mãe, cuja pressão arterial disparava de cada vez que eu entrava a correr com elas na sala. Entre as 5 e as 7 da tarde era hora de ir à "casa da Lili". A minha vizinha da frente chamava-se, na verdade, Maria de Lurdes, estava na casa dos 30 e, não tendo filhos, aturava-me com prazer os devaneios tipicamente infantis da altura, ainda que eu fosse uma criança invulgarmente tímida e muito metida nos meus assuntos. Sejam lá quais forem as coisas e assuntos de uma miúda de 11 anos. À Lili devo eu muita coisa. Passávamos o tempo a falar de como tinham corrido os respectivos dias. Lembro-me de uma conversa particularmente entusiasmada na altura em que o primeiro rapaz me pediu em namoro a sério (a minha primeira pseudo-relação foi aos 8 anos quando o miúdo novo da turma, que se sentava na mesma carteira que eu, me perguntou se eu queria ser a mãe dos filhos dele. Foi a minha primeira declaração de amor, se bem que eu nunca mais me quis sentar ao pé dele). Ela ouvia todas as confissões com um sorriso maroto nos lábios, um misto de ternura de quem assistia à iniciação ao amor, e, ao mesmo tempo, pensava que ainda faltava muito tempo para que eu o compreendesse. Descíamos as escadas para a cave, abríamos as portas que davam para um jardim nas traseiras e ficámos sentadas nas cadeiras de verga a beber chá e a comer biscoitos, enquanto ela fazia suceder os vinis de música clássica, um após outro, Bach, Ravel, Tchaikovsky, Handel, Mozart, Puccini, Schumann, Verdi, Debussy ... Quando fiz 11 anos ofereceu-me o meu primeiro livro. Até então, todo o contacto literário se havia limitado aos textos dos livros de português da primária, que lia e relia vezes sem conta ao ponto de quase os conseguir dizer de cor se a Professora Noémia mo pedisse. Com 11 anos li então o Principezinho. O melhor livro que uma criança pode alguma vez ler. Claro que na altura o que me ficou da história foram elefantes, chapéus e jibóias, embondeiros e planetas só com um candeeiro. Voltei a ler o livro aos 18 anos, e desde então não passa um único ano sem que o leia novamente, e a cada nova leitura descubro sentimentos e ideias novas que até então me haviam passado despercebidas. E choro de cada vez que o leio. E tenho-o guardado religiosamente numa caixa de madeira com motivos infantis que me foi oferecida pela mesma pessoa que me presenteou com o livro. Devo-lhe muito, de facto. E a cada ano, a cada nova leitura, lhe devo cada vez mais.
Hoje, 23 de Abril, é o dia mundial do livro. Na praça da República encontra-se novamente a Feira do Livro, à qual é sempre agradável dar uma vista de olhos. A ver se compro finalmente o Cadernos da casa morta do Dostoievski, para ler logo após o Madame Bovary de Gustave Flaubert que, ainda que não tenha sido planeado, vou começar hoje mesmo a ler. Porque daqui a não muito tempo os únicos livros onde me vou poder enfiar vão ser os compêndios e enciclopédias médicas. Que por muito bonitos que sejam, não sabem contar uma boa história.

No comments:
Post a Comment