Tuesday, November 14, 2006

Find the rithm or your love for me


Chorámos. Gritámos. Rimos e sorrimos como 2 crianças. Sofremos. Tínhamos a mania de enfiar a faca bem fundo no peito e brincar com ela, escarafunchar devagarinho até ficarem apenas lamentos e vontades banhadas na poça de sangue. Gostávamos de colorir o que, na verdade, viríamos então a descobrir, sempre foi a preto e branco. Inventávamos histórias e juntávamos pozinhos mágicos para que aos olhos tudo brilhasse perfeito. Afinal, o amor devia se assim mesmo: perfeito, arrebatador.

Sim … inventávamos histórias de amor e ficávamos vê-las subir em bolas de sabão sopradas em sussurros a meio da noite, empurradas para longe ao som da música dos Suede. As pequenas carregavam desejos secretos só entre nós revelados, nas grandes depositávamos sonhos do tamanho do mundo.

Acendemos velas que arderam noite adentro, à laia de ternas conversas com sabor a chocolate. Palavras que saíam devagar e pairavam à nossa volta, com gumes afiados que espetavam na pele e deixavam pequenas feridas abertas, que íamos lambendo ao longo dos dias, para cicatrizar.

Ouvimos música de cortar os pulsos, para acalmar a sensação de peito esmagado que não deixava respirar. Antony and the Johnsons e as lágrimas a cair ao canto da porta do quarto escuro. Coco Rosie e os olhos fechados, afundados nas almofadas por cima da cama. Khonnor e os meus passos incertos à hora em que o sol despontava no frio das manhãs amargas e dolorosamente … iguais.

Dançámos à chuva e chapinhámos nas poças de água, corremos em busca de fogos-de-artifício, bebemos chá de menta e adormecemos envolvidas em fumo de incenso. Os pauzinhos de incenso, iluminados, um após outro, após outro, e mais outro ainda …

Chorámos. Tanto. Para nós o Inverno foi cheio de água. Por sorte, penso eu agora, não chegámos a secar.

Abrimos portas e libertámos fantasmas que se esgueiraram pelas frestas e caminhavam connosco, seguiam-nos os passos lado a lado, dormiam connosco à noite e se olhavam connosco ao espelho. Levavam-nos pela mão a deambular pelas ruas, sem sentido, dava-lhes gozo martirizar-nos, impiedosos, sair e entrar em nós sem pedir licença. Atormentaram-nos por tanto tempo que lhe perdi a conta, dias seguidos de noites, seguidos de mais dias e mais noites, não lembro se me sentia viva ou só pela metade.

Restaram-nos as mágoas, no corpo ainda, talvez, umas quantas mazelas, uma ou outra nódoa negra que ainda dói quando carregamos. Certas feridas só agora começam a ganhar crosta, algumas deixarão, aposto, cicatrizes que vamos carregar para sempre.

Sobraram-me mais 17 cm de cabelo. Lá para o final do ano, chegarei, espero aos 20.

Disse logo que não ia ser fácil. Senti-me, na verdade, violentada, música após música, tentando manter o apropriado auto-controlo. Chorei e chorámos, afinal, não temos que explicar nada a ninguém, nem sequer aos que nos são mais próximos, e ainda que o fizéssemos duvido que alguém percebesse. Deixei ali ficar, pregada à cadeira, uma parte de mim que dormitava silenciosa, que derramava soluços envergonhados, que doía ainda. Ainda bem que o fizemos. Fechei por fim todas as portas e encarcerei lá dentro todos os fantasmas. Proponho fazermos uso unicamente da memória como forma de as voltar a abrir.

Respirar já não é tão penoso, os passos tornaram-se agora bem mais leves, e restou-me ainda esta vontade infantil de dar gargalhadas. Sonoras, imensas, que ecoem em todos os sítios e cheguem a todas as pessoas. Porque passou. E tínhamos , no fim de contas, toda a razão: O amor é, de facto, perfeito. Prometo-te.

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E no fundo, apesar de todas as músicas que ouvimos juntas, aquela que me ficou desses tempo foi esta … Estranhamente ;)



1 comment:

Anonymous said...

todos os dias eu ainda sopro bolas de sabão, na esperança de que alguma delas atravesse o espaço e se deposite noutras mãos que não as minhas. há de haver uma delas que não vai rebentar... e se é para matar dias sombrios pois que seja... Coco Rosie são as senhoras que se seguem! e não quero, não posso, não devo e não consigo falar sobre o resto. isso que me prometes eu já o sei, só finjo me ter esquecido, tal como todos os dias me levanto para desacreditar o coração... por sorte nem sempre sou bem sucedida... o vento canta para mim... canta comigo!
nesse dia, nessa manhã por momentos desconheci o teu rosto. olhavas convicta uma promessa inacreditável até então; agora entendo que a selaste com esta mesma música que te ficou dessa manhã. juro que nem tive dúvidas que fosse esta.
cose a tua manta da felicidade de olhos fechados, não precisas de mais nada. convida três ou quatro pessoas para se deitar nela, vão ficar maravilhados.
vou estar sempre aqui para ver-te voar... voa longe, vai ser feliz!