Tuesday, November 28, 2006

Crepuscular




Vi os olhos da lua numa noite sem lua; e
os dedos do sol numa dia sem sol. Vi o seu
desenho inscrito nas nuvens do crepúsculo:
o rosto cego da lua, os braços apagados do
sol. Levei os dedos do sol aos olhos da lua,
e abri-os: num movimento de pálpebras,
o dia fez-se noite. E adivinhei a cor dos
teus olhos de lua com os meus dedos de sol.

Esperei por ti na confluência das nuvens
do poente. Vi-as desceream até ao mar com
seus ventres carregados de água; e vi o
dorso do mar subir até elas numa rebentação
de maré cheia. Ouvi o céu e o mar juntarem-se
num gemido de amor; e tapei os ouvidos ao
grito do orgasmo celeste, com o sangue da tarde.

Enganei-me nos caminhos que me levavam
ao céu; troquei as voltas que me traziam
ao mar. Sentei-me contigo na terra da noite,
sem lua nem sol; e o teu rosto de pálpebras
fechadas trouxe-me o sol, para que te abrisse
os olhos com os seus dedos de fogo. Entrei
no seu doce subterrâneo, longe da lua e do sol.

A tarde demorou-me nos teus braços
até essa noite que encheu de sol os meus
dedos e de luar os teus olhos.

"Crepúsculo"
.
de Nuno Júdice

2 comments:

CHIC-HANDSOME said...

good picture

Anonymous said...

acordei triste, vi este poema e pensei gritar: MEXELHOEIRA GRANDE É FIXE!
mas cheguei aqui vi isto... já não quero. estou com medo