
Lembrei-me, sem razões que a tal conduzissem, das tardes murchas de Outono com as enormes janelas abertas despoduradamente para o jardim das traseiras, sentadas em cestos barulhentos de verga a beber chá preto do bule azul-céu com a asa já partida, ou a mordiscar generosamente queijo Camembert importado, enquanto as folhas mascaradas de cores quentes insistiam em nos vir beijar os pés.
Por detrás do cortinado já desbotado pelo tempo havia uma grafonola que fazia questão de manter muito bem cuidada, era herança de família e levava-me tantas vezes a nela perder o olhar, arrastado ao compasso da música de Wagner, Schubert, Prokofiev, Brahms, Tchaikovsky ou Verdi. Tudo o que sei de música clássica foi ela que me ensinou. Passava horas, deliciada, a falar dos grandes compositores clássicos e das cidades que era pecado não visitar. Tinha já estado em todas elas, e eu ouvia, calada e absolutamente enebriada pelos sons que pairavam nas ruas de Viena ou nos becos recônditos de Praga. Eram tardes intermináveis que chegavam ao fim sempre cedo demais. Sem pressas nem compromissos, apenas nós as duas, a grafonola e os vinis polidos, as pilhas de livros antigos espalhadas pelo chão e a mesa com o chá e o queijo.
Hoje cruzamo-nos nas ruas e mal nos falamos.
Gostava de um dia destes a obrigar a parar, olhá-la nos olhos e dizer "Obrigado".
Penso que não imagina o quanto isso me faz falta.

3 comments:
pode ser piada, mas olha que eu não escrevi sinfonias...e o meu filho só escreveu seis...
2 pessoas que tenho de mandar parar.
Não interessa própriamente aquilo que fizemos com os ensinamentos, mas sim o facto de terem inspirado a nossa vida de alguma forma.
6 já não é mau ... deu a sua contribuição ...
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