Ainda é cedo, meu amor.
Hoje sonhei-me sem ti, e juro por Deus que quase morria.
Procurava-te, aflitiva, e os rostos sucediam-se sem que algum me desvendasse o teu.
Sonhei quem me abandonavas, e acordei disparada na pulsação vertiginosa e no peito estilhaçado por momentos, até te voltar a encontrar a meu lado, dormindo devagar, alheio à monstruosidade que acabaras de cometer.
Quis-te bater, cravar-te as unhas até te fazer sangrar, acordar-te aos berros e apedrejar-te no centro da praça, para que todos te julgassem no teu crime hediondo.
Eras vela que queimava e cera que me derretia pousada na pele.
Mas cobarde como sou, a voz embargou-se-me e sofri calada, os joelhos colados ao peito, as costas amparadas na parede fria do quarto, os olhos inundados de sal.
Assim me deixei ficar, à espera que desses por mim e me arrastasses pelo corpo novamente, para dentro do calor dos teus braços, os dedos abertos até se entrançarem uns nos outros, as pernas dormentes, enroladas num novelo sem se lhe encontrar a ponta. O vento húmido da tua boca entranhado e condensado por entre os fios do meu cabelo.
Deixei-te dormir sem percalços, na vontade entorpecida de te manter desperto, e enquanto te sentia a respiração abrandar, repetia-te nos gestos de lábios inaudíveis:
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Se me deixas morro! Se me deixas morro! Se me deixas morro!

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